Candomblé em Portugal: Itans, o Orísá e a percepção Humana.


Na revista Povo de Santo e Asé, da qual sou o responsável máximo, temos sempre o cuidado sempre que publicamos um itan ou lenda relativa a um ou mais Orísás, de publicar conjuntamente o seguinte esclarecimento:

As lendas, mais que contarem factos, têm sobretudo a particularidade de nos transmitirem o conhecimento de uma determinada energia. É também nas lendas, que percebemos o porquê de algumas formas de estar e de ser dos filhos de um determinado Orísá; da sua forma de se relacionar com os outros, com as coisas, situações e com o mundo”

E porquê?

A explicação politicamente correcta seria que, a revista em questão, devido à sua vertente ecuménica, é lida por pessoas de todos os quadrantes espirituais, de todas as religiões e credos. Assim sendo, por principio, pessoas que não pertençam ao “Povo do Santo”, ou que apenas agora estejam a começar a sua caminhada na gloriosa estrada dos Cultos Afro-Brasileiros, estariam alertadas para não confundirem mito e realidade.

Os itans não são mais do que alegorias explicativas, que traduzem em palavras simples de serem entendidas, as diversas energias de cada um dos Orísás, e que nunca por nunca deverão ser levados “à letra”. Ou seja, não traduzem comportamentos e sentimentos reais. Exemplificando: um itan que explique um certo antagonismo energético entre, por exemplo Ògún e Nanã ou entre Osùn e Obá, jamais traduzirá os “sentimentos” desses Orísás um pelo outro; ou muito menos, traduzirá numa explicação aceitável os sentimentos dos filhos destes Orísás uns pelos outros. Dizer “ A tua Mãe fez a minha cortar a orelha, e por isso não gosto de ti” é, no mínimo, não entender nada do que se leu ou ouviu.

Isto porque os Orísás são, à excepção de Olorun, as formas mais elevadas de luz e espiritualidade. Assim sendo, não possuem rancores ou inimizades; possuem sim, energias distintas, que nós humanos, não entende riamos se não existissem itans. E energias essas que se complementam de forma a criar o todo harmonioso que é o mundo espiritual

Essa é a missão da Povo de Santo e Asé. Desmitificar o Culto, dentro do que é possível fazer, e educar os seus leitores.

No entanto, e infelizmente, a “carapuça” da explicação do porquê de tal prólogo, não serve apenas a quem é novato na religião (se bem que novatos todos somos face a uma religião que possui mais de cinco mil anos…). E esta é a explicação que não é politicamente correcta.

Existem, pasme-se, Bábálórísás e Yálórísás e Pais ou Mães de Santo, por motivos que apenas eles próprios poderão explicar, a verbalizar discursos baseados na errónea interpretação dos itans. Em Portugal e no Brasil, frases como: “Eu não me dou bem com fulana… ela é de Nanã e eu de Ògún” ou “ Não quero nada com Omulu! O Meu Pai Xangô até me castigava!” são, infelizmente, frequentes. Por puro analfabetismo religioso de quem as produz.

Pergunto eu: como é que esses zeladores conseguirão promover a união e o amor entre os seus filhos, e dentro do seu barracão, se o exemplo que dão é exactamente o oposto? Como promoveriam os Orísás tal união mundial, se como seres evoluídos espiritualmente, se prendessem a tais amarras?

Isto não existe! Tais atitudes descredibilizam, enfraquecem, minam e votam ao ridículo aquilo a que, alguns de nós, dedicamos a nossa vida: O Candomblé.

Por isso, peço: deixemos todos de tentar encontrar nos itans as justificações que julgamos viáveis para as nossas falhas Humanas. Deixemos de franzir o nariz aos filhos de determinado Orìsá (ou pior ainda, ao próprio Orísá) apenas porque determinado itan, alega uma energia antagónica à do nosso Olori.

Deveríamos, isso sim, utilizar a energia que nos é proporcionada por Ele ou Ela para completar a do outro, que é diferente da nossa e, da mesma forma, aceitar a dele para que nós próprios sejamos mais completos. Por que afinal, somos todos filhos do mesmo Pai: Olorun. Não existe, uma oração do Pai Nosso, seja ela em Português, Yoruba ou qualquer outra língua especifica para os filhos de cada Orísá. Jamais ouviremos dizer “Pai Nosso, excepto dos filhos de Nanã (ou qualquer outro), que estais no céu…..”. No céu, ou onde Olorun estiver e nos quiser colocar…

~ por Candomblé em Portugal - Ilé Asé Omim Ogún em Julho 4, 2012.

Uma resposta to “Candomblé em Portugal: Itans, o Orísá e a percepção Humana.”

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