Candomblé em Portugal: As Oferendas no Candomblé, e nas várias religiões.


O Candomblé é uma religião caracterizada, entre outros, por um conjunto de práticas ancestrais, que vigoram à cerca de seis mil anos, tentando os seus fieis garantir que os seus preceitos se mantenham o mais inalterados possível, com o decorrer dos anos. Obviamente, que o movimento migratório esclavagista entre África e o Brasil, derivando numa adaptação a uma nova terra e a uma nova realidade, criou uma transformação superficial e estética no culto.

Mas o fundamento manteve-se!

Fundamento esse, amiúde questionado, criticado e perseguido por outras religiões, que, sem o mínimo de ecumenismo e respeito pela crença alheia, denigrem a individualidade religiosa e tentam enxovalhar o bom-nome e integridade de quem o leva a cabo. Desde as perseguições efectuadas no Brasil, que chegam a pontos extremos como a agressão e a tortura, a outras formas mais subtis, a verdade é uma e uma só: os cultos Afro em geral e o Candomblé em particular, apesar de

possuírem um crescente numero de seguidores, ainda são encarados pela generalidade da população como seitas, magia negra e crenças obscurantistas. Nada mais

longe da verdade…

É óbvio que, os sacrifícios de animais, presença constante nos rituais de Candomblé, e a interpretação desfasada e errónea desse acto, funciona como catalisador para as teses de Satanismo e outros disparates contíguos.

É verdade! No Candomblé, são sacrificados animais em honra dos Orísás, entidades veneradas pelo culto. No entanto, o que seria importante compreender, é que muitas outras religiões, em determinado momento, já praticaram sacrifícios aos seus Deuses ou Santos. São sobejamente conhecidos relatos sobre os sacrifícios Mayas ao Deus Sol; Sacrifícios a Rá no antigo Egipto;

Sacrifícios a Odin perpetuados pelos povos Nórdicos… no entanto, os sacrifícios de animais e oferendas (à semelhança do que é feito no Candomblé) na religião Católica, são menos conhecidos pela população em geral. Talvez, agravando o desconhecimento e desconfiança face aos cultos Afro-Brasileiros.

Estão patentes no Livro Sagrado da religião Católica, a Bíblia, passagens em que, os sacrifícios e oferendas cumprem papel fulcral na relação com Deus.

Senão vejamos:

– A bíblia: 5 Ofertas Leviticas:

Levítico é o terceiro livro da Bíblia, vem depois do livro de Livro do Êxodo e antes de Números. Faz parte do Pentateuco, os cinco primeiros livros bíblicos, cuja autoria é, tradicionalmente, atribuída a Moisés. Recebe essa denominação porque contém a Lei dos sacerdotes da Tribo de Levi, a tribo de Israel que foi escolhida para exercer a função sacerdotal no meio do seu povo. Contém, entre outros assuntos, as leis de Deus sobre as formas de serem consagrados os 5 sacrifícios divinos:

O Holocausto

O holocausto era um sacrifício completamente queimado. Nada dele era comido, e então o fogo

consumia o sacrifício inteiro. É importante notar que o fogo jamais se apagava:

O adorador israelita trazia um animal masculino (um touro, cordeiro, cabra, pombo, ou rola, dependendo da riqueza do adorador) para a porta do tabernáculo.

O animal devia ser sem defeito. O adorador então colocava as mãos na cabeça do animal, e em consciência que este animal inocente estava sendo reputado por pecador, buscaria o Senhor para perdão, e então mataria o animal imediatamente.

Os sacerdotes eram responsáveis por lavar as várias partes do animal antes de colocar sobre o altar:

Lev 1:6-9 “Então esfolará o holocausto, e o partirá nos seus pedaços. E os filhos de Arão, o sacerdote, porão fogo sobre o altar, pondo em ordem a lenha sobre o fogo. Também os filhos de Arão, os sacerdotes, porão em ordem os pedaços, a cabeça e o redenho sobre a

lenha que está no fogo em cima do altar; Porém a sua fressura e as suas pernas lavar-se-ão com água; e o sacerdote tudo isso queimará sobre o altar; holocausto

é, oferta queimada, de cheiro suave ao SENHOR.”

A Oferta de Manjares

Os Israelitas ofereciam manjares (cereais) ou legumes além dos animais. Levítico capítulo 2 menciona quatro tipos de ofertas de cereal, e dá instruções de preparo para cada uma. O pecador poderia oferecer massa de farinha de trigo assada num forno, cozida numa forma, frita numa panela, ou amassada para fazer pão (como na oferta das primeiras frutas). Todas as ofertas

de manjares eram feitas com óleo e sal e nenhum mel e fermento seria usado (óleo e sal preservaram, enquanto o mel e fermento deteriorariam). O adorador também traria uma porção de incenso (puro incenso). As ofertas de manjares eram trazidos a um dos sacerdotes que levaram isto ao altar e lançaram uma “porção memorial” ao fogo e fazia o mesmo com o

incenso. O sacerdote comia o restante, a menos que ele mesmo trouxesse a comida como oferta, e

então queimá-la-ía por inteiro.

O propósito da oferta de manjares era uma oferta de presentes, e fala de uma vida que é dedicada a

dar, e à generosidade.

As Ofertas Pacíficas

A oferta pacífica era uma comida que foi dada pelo Senhor, aos sacerdotes, e às vezes ao cidadão comum. O adorador trazia bois ou vacas, ovelhas, ou uma cabra. O ritual foi comparado com o das ofertas queimadas, até ao ponto de queimar, onde o sangue de animais era vertido ao redor das extremidades do altar. Foram queimadas a gordura e as entranhas, e o restante era

comido pelos sacerdotes, e, (se fosse uma oferta espontânea) pelos adoradores. Este sacrifício de louvor e ação de graças era quase sempre, um ato voluntário.

As ofertas pacíficas, incluíram bolos sem levedura. Os sacerdotes comiam tudo, menos a porção comemorativa dos bolos, e certas partes do animal, no mesmo dia que o sacrifício foi feito, e quando o adorador os levava, como oferta voluntária, o adorador poderia comer durante 2 dias do animal inteiro, menos o peito e a coxa direita que era comida pelos sacerdotes.

Jacó e Labão deram suas ofertas pacíficas quando fizeram o seu pacto (Gen 31:43 ss). era exigido fazer estas ofertas quando se fizesse um voto de consagração a Deus, e agradecendo com louvores enquanto, espontaneamente, se traziam as ofertas voluntárias.

A Oferta pelo Pecado

As Ofertas pelo pecado expiavam, (liquidavam a dívida por completo) das fraquezas e fracassos não intencionais dos adoradores e fracassos diante do Senhor.

Lev 4:1-4 FALOU mais o SENHOR a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel, dizendo: Quando uma alma pecar, por ignorância, contra alguns dos mandamentos do SENHOR,

acerca do que não se deve fazer, e proceder contra algum deles; Se o sacerdote ungido pecar para escândalo do povo, oferecerá ao SENHOR, pelo seu pecado, que cometeu, um novilho sem defeito, por expiação do pecado. E trará o novilho à porta da tenda da congregação, perante o SENHOR, e porá a sua mão sobre a cabeça do novilho, e degolará o novilho perante o SENHOR.

Cada classe do pessoas tinha várias ordenanças para executar:

Os pecados do sumo sacerdote requeriam o oferecimento de um touro, e o sangue não era vertido no altar mas aspergido do dedo do sumo sacerdote 7 vezes no altar. Então a gordura era queimada, e o restante também (nunca comido) fora do arraial “num lugar limpo” onde o sacrifício era feito e as cinzas se despejavam.

Os pecados dos líderes requeriam o oferecimento de um bode. O sangue era aspergido somente uma vez, e o restante era vertido ao redor do altar como com o oferecimento queimado.

Os pecados do povo requeriam animais fêmeas, cabras, cordeiros, rolas, ou pombos e no caso de ser muito pobre, um oferecimento de grãos era aceitável só como um oferecimento de manjares.

Os pecados não intencionais eram difíceis identificar e poderiam acontecer a qualquer hora, e então os sacerdotes trabalhavam de perto como mediadores com Deus e o povo, e instruíam as pessoas sobre como deviam buscar ao Senhor. No caso de qualquer pecado cuja oferta não foi trazida diante do Senhor, havia ofertas para a nação e para o sumo sacerdote que os cobriam de um modo coletivo. No Dia da Expiação (Yom Kippur) o sumo sacerdote aspergia sangue no

propiciatório para os seus próprios pecados e pelos pecados da nação.

As Ofertas pela Culpa

A Oferta pela culpa era bem parecida com a oferta pelo pecado, mas a diferença principal era que a oferta pela culpa era uma oferta em dinheiro para pecados de ignorância relacionados à fraude. Por exemplo, se alguém enganasse sem querer a outro por dinheiro ou propriedade, o sacrifício devia era ser igual à quantia levada, mais um quinto para o sacerdote e para o ofendido.

Visto isto….

….Poder-se-á dizer, embora sempre carecendo de confirmação, que estas práticas foram abolidas pela Igreja Católica. É possível, sim. No entanto, há que ressalvar uma diferença abissal entre esta e o Candomblé:

O Candomblé, conforme foi dito no início deste texto, tem como característica primária que os seus preceitos e fundamentos se mantenham inalterados ao longo dos anos. É fundamental manter as coisas tal qual como foram feitas pelo primeiro Babalórísá ou Yálórisá. È assim o caminho do Santo.

Por seu lado, na Igreja Católica, e por mais válidas, úteis e ecuménicas que sejam as alterações tidas à sua base teológica, a realidade é que as premissas vão mudando, ano após ano. A reverência à ancestralidade, é portanto feita, de forma diferente, quando comparada com o Candomblé.

Talvez este relato venha fazer incidir alguma condescendência quanto aos hábitos do próximo. Seria excelente, se a mentalidade se abrisse, abarcando todas as realidades.

~ por Candomblé em Portugal - Ilé Asé Omim Ogún em Fevereiro 27, 2012.

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