Candomblé em Portugal: Ògún Ajò è Marìwó


Já por mais do que uma vez, no Ilé Asé onde tenho o orgulho de ser Omo Orísá (Filho de Santo), todos os Yaôs, Abians e simpatizantes de Candomblé da Casa tiveram o prazer, o orgulho mas sobretudo a honra de terem estado alguns minutos a ouvir esse baluarte do Candomblé mundial, pessoa de enorme elevação espiritual e humana que é o Bábàlórìsá Aristides Mascarenhas ou, como é carinhosamente conhecido no Santo, Pai Ari d’Ajagunã.

Foi por iniciativa do Agabá do Ilé Asé Omin Ogún, Bábàlórìsá Jomar d’Ogun, que essa permissão de saborear, ouvir e aprender com as palavras de tão ilustre figura foi concedida. Uma bênção para todos, esta atitude de Pai Jomar; uma vez que, para além dos ensinamentos supremos e de inegável elevação espiritual que transmite no dia a dia a quem o acompanha no Santo, e que apenas quem os recebe conhece da sua profundidade, Pai Jomar permitiu um pouquinho da visão e sapiência de um dos expoentes máximos do coração da Bahia, centro do Candomblé por excelência. Estas “conversas” foram, como não poderia deixar de ser, transcritas nas páginas da Revista Povo de Santo e Asé.

Quanto aos filhos do Ilé Asé Omin Ogún que presenciaram in loco as sábias palavras de Pai Ari d’Ajagunã, e a todos quantos as leram nas páginas da revista, mais não resta do que interpretá-las e aplicá-las ao fluxo condutor que norteia a vida de cada um. Se assim não for feito, é uma oportunidade de ouro que se deita ao lixo, o que é, no mínimo, uma acção incauta… isto porque urge criar no seio de cada pessoa, a noção de que a unidade, fraternidade, amor pelo próximo e, sobretudo, pelo Orísá, são ensinamentos que deverão ser aplicados dia a dia, hora a hora, segundo a segundo! As palavras e presenças de Pai Ari transpiram estes valores; estão impregnados desta essência!

Numa das passagens dos seus discursos, Pai Ari dissertou sobre o propósito e significado da frase “Ògún Ajó é Marìwó!”. Explicou que, este Oriki, pede a Ogún que venha calmo, sem o seu temperamento explosivo e destruidor…. Esta explicação leva-me a pensar: sendo verdade que queremos que Ògún venha para nos abrir os caminhos e levar tudo o que não presta, e no entanto, manter as nossas cabeças salvas da sua ira, devemos meditar nas desprezíveis acções dos humanos que despertam essa ira do Grandioso Orísá! Essas acções, levam-me a questionar o seguinte: não existirá um Oriki capaz de pedir ao SER HUMANO que seja calmo, sem o seu temperamento destrutivo? Isso sim, seria excepcional! Porque infelizmente, no nosso quotidiano, todos constatamos (e muitas vezes praticamos) verdadeiros atropelos à dignidade moral e física do próximo, muitas das vezes cometendo esses delitos como se fossemos cilindros compactadores de estradas. Prejudicamos o nosso “irmão”, sem mais nem porquê e por vezes sem querer conhecer a totalidade das consequências dos nossos actos! Seja por palavras, acções, pensamentos, estados de espírito e de humor, soberba ou falta de humildade… não importa! O que importa que prejudicamos amiúde um outro ser Humano, e nunca, mas nunca, conhecemos a profundidade da ferida que, embora eventualmente um dia venha a cicatrizar, deixámos de “presente” para todo o sempre.

Pergunto: Onde está o “rasgo de visão” que nos permite ser mais cuidadosos no nosso ser? Onde está o “rasgo de visão” que nos permite ver mais além, evitando assim magoar e ferir quem está ao nosso lado? Bloqueado, certamente, na maioria das vezes… Por isso, talvez, em vez de pedir a Ògún que venha calmo e não nos corte as cabeças, devêssemos pedir-lhe visão para não despertar a sua ira e bom senso para exercer o nosso livre – arbítrio sem esmigalhar a liberdade do próximo. Se pedíssemos a capacidade de respeitar; a capacidade de ver o Orísá do outro antes de ver a própria pessoa que como nós é Humana e susceptível a errar; se implorássemos espiritualidade e não materialidade; se arreássemos ébòs para sermos melhores pessoas e não para termos melhores carros, o “Ògún Ajó è Mariwó” teria um significado muito mais puro e próximo daquilo que a comunidade Yorubá pretendia quando o cantava: louvar a energia do Orísá que, embora corte cabeças, nunca nos abandona….

Resta-nos arrepiar caminho! Apreender o que nos é ensinado, pensar e decidir que até ao último dia das nossas vidas vamos implorar aos Orísás a ajuda e a coragem necessária para pedir desculpa a todos os que prejudicámos e magoámos, evitando futuros atropelos. Se assim não for, não existirá “Ògún Ajó é Mariwo” que nos valha… porque então, estaremos a agir de má fé e premeditadamente! E se assim for, que Olorun tenha piedade de nós…. Aprendamos, dentro das nossas limitações Humanas a sermos aquilo que, Olorun nos destinou ao sermos todos filhos de Deus, o mesmo Pai: Irmãos!

Ogunhé Patakori au Anéji Ogún! Jaci Jaci Bába Mi!

~ por Candomblé em Portugal - Ilé Asé Omim Ogún em Janeiro 26, 2012.

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