A Alegoria do Lavrador, ou a saga dos Pobres de Deus.


O lavrador ergueu os olhos e contemplou o que se estendia aos seus pés: a terra era fértil. Em toda a sua extensão o potencial de próspera colheita era ilimitado. Vastas planícies prontas a serem trabalhadas, de forma a servirem de útero fecundo à semente. O solo verificava-se praticamente virgem… apenas uma ou outra semente havia sido lançada, medrando a compasso. Ao redor, populações inteiras ansiavam pelo alimento, pela nutrição. De entre povo faminto, praticamente ninguém havia ousado cultivar a terra; não por falta de vontade, não por falta de necessidade, mas sim por pura ignorância. Ninguém sabia como faze-lo; como trabalhar o solo, como botar a semente, rega-la e faze-la crescer para dar árvore, brotando finalmente o fruto que sacia.
O Lavrador sorriu. Conhecia as formas e formulas para levar a cabo o que poucos intentaram. Estava no seu domínio. Havia aprendido com os melhores, guardando no seu intimo experiências, conhecimentos e tradições que se vinham acumulando pelos Lavradores que o antecederam, ensinamentos passados escrupulosamente e sem subterfúgios.
Decidiu avançar.
O trabalho que se apresentava era homérico; quer pela dificuldade em coloca-lo em prática uma vez que, devido à ignorância geral, teria de o fazer sozinho ensinando os que escolhessem acompanhá-lo, quer pelo tempo que demoraria a executar. Mas a vontade tende a ser de ferro, quando alguém se move com o coração; e as contrapartidas eram mais compensadoras do que a demanda que se apresentava.
O Lavrador deitou mãos ao árduo labor que se deparara, para seu grande espanto, a si e não a outro qualquer; fosse por vontade divina ou por mera oportunidade. Ele que era filho da terra, ele que havia sentido na alma a fome que proliferava agora ao seu redor, teria oportunidade de colocar ao serviço de outrem os ensinamentos que lhe haviam sido passados e que lhe haviam possibilitado , ele próprio, comer. Ganharia honestamente a vida saciando a fome a quem a ele viesse; esse era o plano.
Começou, paulatinamente a semear a terra. Com humildade e coerência, com sabedoria e virtude.
O Lavrador executava a preceito o que havia aprendido; aplicou tudo o que conhecia, nesta missão da sua vida. Aos poucos, a terra plantada, começava lentamente a ser cama de colheita frutífera, sendo que, simultaneamente, era a cartilha de quem o acompanhava no trabalho. As populações famintas acorreram em massa; eram tempos prósperos. A fome diminuía, a escuridão dissipava-se a a luz começava, lentamente, a se instalar.
O Lavrador ganhou nome, ganhou fama pelo seu desempenho. Os seus produtos eram a referência. Não havia quem não tivesse, ao menos uma vez, mencionado o seu nome. Cobrava bem pelo que produzia; o valor do seu trabalho era recompensado mais do que devidamente. Mas o Lavrador era Humano… e ao olhar ao seu redor, pensou que o que tinha não era suficiente.
Daí, à ganancia, foi um ápice; o focus principal do trabalho fora desvirtuado pelo dinheiro. Já não era o facto de ganhar a vida matando a fome a quem necessitasse que movia o Lavrador, mas sim mais e mais dinheiro; dinheiro para compensar os desvarios da carne que a alma não suporta. O espírito corrompia-se a cada maçã, a cada batata. Mais, mais, era o lema. Imparável na sua sede de riqueza. Com esta forma de agir, Lavrador ficou rico e continuou a desempenhar bem o seu trabalho, mas negou o Pão a quem não tinha posses. Essa foi a primeira faca que cravou no seu próprio peito.
Paralelamente, aos sinais de prosperidade e como é apanágio da raça humana, responderam em catadupa os vampiros. Lavradores que jamais haviam presenciado uma colheita, uns nativos outros vindos de locais longínquos, acercaram-se desta nova realidade, desta terra de luz, alimentada pela fome e vontade dos seus povos. Entre as vagas de recém chegados à lavoira, por cada individuo competente, com a sapiência e o aprendizado devidos, chegavam alqueires de imbecis, de inúteis e exploradores da fome alheia. Sem conhecimento ou noção superficial do trabalho que era necessário realizar para produzir fruto são, tomaram para si as parcelas da terra fértil que encontraram, esperando que das figueiras nascessem cocos. Ao trabalho profícuo e construtivo de uns, opunha-se o engano e logro de outros. Ao invés de colheitas de trigo para pão que mata a fome, colhia-se fruto bichoso, prejudicial e nefasto. E a razão, ou razões para tal? A falta de escrúpulos, o enriquecimento fácil, a ignorância, o laxismo. Campos de colheitas passaram a ser cultivados sem o mínimo dos cuidados ou preceitos, privilegiando o trabalho falso e estéril, mas de muito mais fácil execução, em desprimor do trabalho meticuloso e honesto. Como cogumelos, estes Pobres de Deus, nasciam amontoados, vendendo gato por lebre, enganando quem aos seus produtos recorria para acalmar a sua fome e a dos seus.
O castigo divino, é sabido, não falha, mas pode tardar. O Tempo não é nosso para controlar. E como tal, também esta nova realidade de Lavradores de alpendre ganhou posição e poder. Poder social e económico. Servindo comida contaminada à sociedade.
O Lavrador, ao aperceber-se desta nova realidade ao seu redor, resolveu mudar agulhas. Era para si inconcebível, não aproveitar a oportunidade de ganhar mais fazendo menos, copiando os demais. Aos olhos do Lavrador, esse pareceu ser o caminho; quer consciente, quer inconscientemente. Descurou os seus hábitos, diminuiu a qualidade do seu trabalho, reduziu esforços e entregou-se ao facilitismo; esqueceu aquilo que, ao inicio se propôs quando chegou à terra fértil, porém virgem. No entanto, o preço da sua mercadoria não parou de subir….
Durante anos e anos, trabalhou a terra de forma negligente, não preservando o futuro de quem comia as suas produções. Descuidou a saúde e o bem estar alheio, para proveito próprio. Adulterou e deixou de praticar os antigos costumes dos Lavradores que o antecederam, deixou de honrar a agricultura, passando a trabalhar algo semelhante a que atribuíra o mesmo nome. Esvaziou-se de honra, de amor próprio e de humanismo… foi a segunda faca que cravou no seu próprio peito.
Estas conjecturas passavam no entanto ao lado do povo. A fome continuava grande nas povoações. Grupos de locais continuavam a comprar sustento aos lavradores, por ignorância, necessidade e desespero. Assim, da procura nasceu a aliança. Da desgraça encapuçada de virtude, nasceu o engano.
Atrás foi dito que “por cada individuo competente, com a sapiência e aprendizado devidos, chegavam alqueires de imbecis, de inúteis e exploradores da fome alheia.” Pois esses, os que trabalharam de acordo com as normas e com a moral, foram crescendo. Tal como as plantas que semearam, floriram e criaram raízes. Tornaram-se sólidos. Poucos eram, é verdade, mas existentes. E o Povo viu as diferenças. Como não eram movidos pela ganancia, o preço que cobravam pelas suas produções era justo, de acordo com o valor da mercadoria vendida. E a derivante de trabalho feito consoante a tradição, era sinónimo de qualidade, reconhecível por qualquer um. Pouco a pouco, as populações começaram a ver a diferença. Entre comida que não saciava e envenenada, vendida a preços exorbitantes e comida genuína a preço justo, a escolha era evidente. E, pouco a pouco, a luz tornou a voltar à terra que em tempos fora fértil, mas virgem.
O Lavrador deixara de ser o seu dono supremo. O trabalho efectuado durante os anos, por aqueles que trabalhavam na sua própria paz, roubara-lhe paulatinamente, tanto o destaque como vendas. O Lavrador viu-se encurralado, teria de voltar a praticar agricultura como aquando do seu inicio naquela terra virgem porém fértil. Teria de voltar ao trabalho duro, honesto e viril que proporciona fruta sã.
O problema que se apresentava, agora era outro: durante tantas e tantas folhas viradas do calendário, o Lavrador não praticou o que inicialmente aprendera com os seus Mestres e professores; tal foi o seu alheamento que se esqueceu de como fazer a sua missão correctamente; esqueceu os ensinamentos e os processos, as formulas e forma de criar plantações capazes. Essa foi a terceira faca cravada no seu próprio peito. Em desespero, procurou mentiras, caminhos escuros e soluções mirabolantes. Acusou, à esquerda e à direita, procurando bodes expiatórios para a sua queda do pedestal. Quando a culpa, era apenas e só sua.
O mercado tinha mais jogadores; competentes, capazes e, mais importante, fazendo do rigor a sua doutrina diária. Os companheiros de trabalho do Lavrador, viram-se abandonados, sem timoneiro e começaram a abandonar o barco.
A justiça divina pode tardar, mas não falha. Anos a fio, o Lavrador enganou quem o procurou para matar a fome. Anos a fio, negou auxilio e pão a quem pouco ou nada tinha, quando eram esses mesmo os mais necessitados.
Via-se agora sozinho.
Num assomo de loucura, renunciou a terra, renunciou a capacidade de criar vida onde apenas existe potencial. Quedou-se sozinho, velho, abandonado e sem saúde. Pobre destino para quem teve o mundo nas mãos. Caiu, ás suas próprias mãos, junto com os seus próprios erros. Fez a última colheita da sua vida; colheu tudo o que semeara durante anos. E ninguém consegue colher fruto bom, com semente doente.
Os Pobres de Deus, sanguessugas da fome alheia, continuam a vampirizar a terra que em tempos foi fértil, porém virgem. Continuam a tentar escoar a sua fétida mercadoria. Aproveitam-se dos incautos e desesperados, uma vez que negra é a fome.
Mas também eles têm a sua hora marcada; a terra depois de explorada, tende a ficar estéril se não for tratada convenientemente. E os Povos, que alimentas estes Pobres de Deus, acabarão, eventualmente por ir saciar a sua fome, junto a quem procura alimentá-los.

~ por Candomblé em Portugal - Ilé Asé Omim Ogún em Novembro 11, 2011.

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