Candomblé em Portugal: Babalawô

•Maio 26, 2012 • Deixe um Comentário

Babalawo, Awo ou Babalao é o titulo Yoruba que se atribui aos Sacerdotes de Orunmila ou Orula, o Orisá da sabedoria que opera através do sistema adivinatorio de Ifá. Orunmila é ciente do passado, do presente e do futuro.

O Babalawo como sacerdote de Ifá, pode predizer o futuro e como o manejar através da sua comunicação com Orunmila. Isto faz-se consultando Ifá através da corrente de adivinhação – Okpele, ou sementes sagradas – Ikin, sobre o tabuleiro de adivinhação de Ifá.

Na Santería ou Religião Lukumí, o Babalawo ou “pai dos segredos”, ou Awo, é reconhecido como clérigo e actua como tal na comunidade. Um Awo é o consultor espiritual para os clientes e aqueles que devem ser assistidos para conhecer a seu Orisá tutelar e se iniciar na tradição espiritual dos Orisás.

No tradicionalismo existem mulheres sacerdotes de Ifá – Iyanifa- , ainda que isto não ocorra frequentemente.

Os Awos devem manter um treino de memoria e interpretação dos duzentos e cinquenta e seis Odus e dos numerosos versos de Ifá. Tradicionalmente, o Babalawo possui ainda outras especialidades profissionais. Como por exemplo, pode também ser um grande herbalista. O Babalawo é treinado na determinação dos problemas e na aplicação de soluções seculares ou espirituais para a resolução dos mesmos. A sua função primordial é auxiliar as pessoas a encontrar, entender e a processar a vida até que experimentem a sabedoria espiritual como uma parte das experiências quotidianas.

O Awo deve ajudar às pessoas a desenvolver disciplina e carácter que apoiem esse crescimento espiritual. Isto é realizado através da identificação do destino espiritual do cliente, chamado Ori e desenvolver um caminho espiritual que possa ser utilizado como apoio para cultivar e viver esse destino.

Já que o desenvolvimento espiritual dos demais está a cargo do Awo, este deve dedicar-se a melhorar o seu próprio conhecimento da vida e em converter-se num exemplo para os demais. O Awo que não controla o seu próprio comportamento face aos estandares maiores da moral, pode perder o favor da sua comunidade e ser julgado de maneira mas dura que os demais.

Alguns Awos são iniciados como adolescentes enquanto outros aprendem já adultos. O treino e anos de dedicação a Ifá são a marca dos mas instruídos e espiritualmente favorecidos. É por isto que em média, os iniciados de Ifá devem treinar ao menos uma decada antes de ser reconhecidos como Babalawos completos.

Candomblé em portugal: Trabalho de Antropologia, sob o tema “A religião Candomblé-Ketu em Portugal e a sua influência na prática de Enfermagem”, realizado por estudantes da Escola Superior de Enfermagem, no Ilé Asè Omin Ògún (6ºPost)

•Maio 5, 2012 • Deixe um Comentário

Image

Continuamos a publicar os documentos desenvolvidos pelo grupo de estudo da Escola Superior de Enfermagem que visitou o Ilé Asè Omin Ògún, com intuito de presenciar “in loco” um Siré de Candomblé – Nação Ketu, de forma a observarem os trabalhos, efectuando assim o seu trabalho para a deisciplina de Antropologia e Sociologia.

Continuaremos a publicar desta vez, o trabalho escrito, mais exactamente, a Observação Etnográfica levada a cabo:

Religião: Candomblé

Morada: Rua das Padeiras, Sobreda da Caparica – Almada

Dia: 24 de Janeiro de 2011

Hora da observação: 10h30min – 11h30min

Nome dos estudantes: Inês Melo e Teresa Meireles

Observação ao exterior do Ilé Asè Omin Ògún (Terreiro de Candomblé na Sobreda)

Á chegada, deparamo-nos com uma rua de terra batida e de vivendas, sem passeio e com uma bifurcação, do lado esquerdo dessa bifurcação existe uma pequena ruela de terra batida e sem saída, onde se estacionam os carros, perto de uma grande área de árvores, no lado direito da mesma bifurcação, existe uma rua um pouco mais comprida mas igualmente sem saída, é nesta que se situa o terreiro.

Esta rua tem vivendas dos dois lados, é comprida mas estreita e tem alguns carros estacionados de ambos os lados. Existem apenas vivendas nesta rua, umas maiores que as outras.

Caminhámos até a meio da rua, sensivelmente, e já aguardavam por nós à entrada os mesmos senhores com quem tínhamos reunido dias antes. Estavam ambos vestidos da mesma maneira, calças de ganga, e camisa e camisola respectivamente.

O terreiro encontra-se dentro de uma vivenda, esta é grande, toda pintada de branco, o portão é verde e comprido e todo ele está rodeado de um arbusto alto e verde. Todo o muro que rodeia a casa está igualmente revestido de um género de arbusto majestoso e verde, o qual praticamente não deixa ver a vivenda do lado de fora.

Entrámos e do lado esquerdo existe um cachorro da raça Serra da Estrela que se chama Puma e é de cor castanho-escuro que está constantemente a ladrar até eles a mandarem calar.

Por trás dela, existe um pequeno jardim, de terra batida e com algumas pedras no chão. Este jardim está repleto de árvores, umas maiores que as outras, mas existe uma que é sensivelmente maior, e que parece ter umas pequenas flores brancas. Eles dizem-nos que esta árvore representa o Orísá Iroko, que simboliza a natureza.

Do lado direito existe um caminho que dá acesso à porta que dá acesso à casa. Este caminho é feito de pedra mármore e do lado direito tem um canteiro que o percorre, com flores. Por cima deste caminho está um telheiro que o protege das chuvas. No início deste caminho existe outro cachorro, raça Boxer, que se chama Barbel, e é de cor castanho claro.

A vivenda tem dois pisos, mas o piso de cima é de habitação do dono da casa e por isso não o acedemos.

Assim que entramos, estamos na cozinha, esta tem uma grande mesa ao centro, e do lado direito, um móvel branco. Do lado esquerdo tem a televisão e um frigorífico, depois deste existe um grande forno e uma grande arca congeladora.

Após a arca, existe uma porta, que dá acesso a uma pequena casa de banho, toda ela revestida de um azulejo branco.

Ao fundo da cozinha existe uma churrasqueira e uma porta de vidro que dá acesso ao jardim, que é a prolongação do jardim que vemos à entrada. Este jardim continua decorado imensas flores e árvores.

Ainda na cozinha, do lado direito após o móvel, existe uma porta que dá acesso a um pequeno escritório, que tem uma secretária castanha, uma cadeira da mesma cor e um computador.

Este escritório tem ainda outra porta que dá acesso ao local onde se realizam as cerimónias.

Esta sala é ampla e rectangular e tem um pilar ao centro, o chão é de madeira e as paredes estão pintadas de branco. Eles dizem-nos que apenas no dia em que antecede a cerimónia é que decoram a sala a rigor. Ainda assim as paredes têm molduras de Orísás de todos os que eles veneram.

Do lado direito da sala existem 3 cadeirões, dois de madeira escura e um de madeira clara, por cima existem umas prateleiras, onde se encontra uma pequena figura que segura um género de seta prateada na mão.

Esta parede que está por trás dos cadeirões tem duas molduras a preto e branco, sendo uma de um senhor que não sabemos identificar e a outra do Babálórísá Jomar d’Ògún.

Na parede imediatamente em frente existe mais molduras de Orísás como já foi referido, mas também uma outra moldura a preto e branco de uma senhora que também não sabemos identificar. As molduras dos Orísás são coloridas e a moldura que a reveste é amarela.

Esta sala tem três portas, aquela pela qual entramos e ainda mais duas. A que está imediatamente em frente dá acesso a uma outra sala, eles explicam-nos que esta sala é a casa dos Orísás.Ao fundo, do lado direito existe uma outra porta que dá acesso a uma pequena sala que é onde se fazem os pedidos nos dias de cerimónia e onde existe uma imagem que representa o Orísá da fortuna.

A casa dos Orísás está decorada com imensas prateleiras que a dividem, esta divisão é propositada, pois cada uma destas prateleiras corresponde À casa de um dos Orísás.Estas estão decoradas de imensas roupas e acessórios, cada uma com uma cor distinta, pertencendo ao respectivo Orísá.

Voltando à sala da cerimónia existe então outra porta do lado esquerdo, esta dá acesso directamente ao jardim, mas existe uma parte que tem o chão de pedra e tem uma cobertura que permite também o acesso À porta de vidro da cozinha.

Candomblé em Portugal: Sou yaô… e agora?

•Abril 16, 2012 • Deixe um Comentário

SOU YAÔ… E AGORA?

Para todos aqueles que decidam, pela dor ou pelo amor, abraçar a vida espiritual tendo como veiculo o Candomblé, os primeiros tempos são obrigatoriamente vividos numa amalgama de sentimentos e emoções. A entrada num determinado terreiro é acompanhada pela necessária e fundamental dúvida sobre se realmente é aquele o local que irá proporcionar o crescimento desejado e, mais importante ainda, se será aquele Pai ou Mãe de Santo que será entendido como capaz e merecedor de colocar a sua mão sobre o Ori.

Depois de atingida essa certeza e de se ter em consciência escolhido permanecer na casa que nos acolheu, independentemente do caminho de cada um, seguem-se uma sucessão de múltiplas escolhas que, tal como bifurcações num caminho, terão obrigatoriamente que ser feitas.

A mais importante de todas as escolhas, e que culmina o período descrito, é sem dúvida a de escolher se se deverá ou não avançar para a iniciação. E é esta a mais importante das escolhas porque nada na vida de quem decide fazer a sua primeira obrigação tornará a ser como dantes! Pelo menos, assim deveria ser. A partir do instante que alguém “faz o Santo”, tem a obrigação de honrar e respeitar Olorum, os Òrisàs, o seu Pai ou Mãe de santo e cada um dos seres humanos que cruza o seu caminho, sem qualquer tipo de reservas. Essa pessoa passa a ser pertença do Òrisà, e deverá a toda a hora ser um veiculo de transmissão dos seus ensinamentos.

È esta a jura secreta que cada um faz com o dono/a do seu Ori quando se torna Yaô.

Ora pois bem, é aqui muitas vezes que reside o problema. Esta é uma tarefa exigente e de extrema responsabilidade. Embora nenhum Yaô possa em consciência dizer que cumpre escrupulosamente e sem falhas este desígnio, é obrigação de cada um lutar humildemente para detectar as suas falhas e erros, trabalhando para os minimizar e corrigir.

E nem é difícil começar a faze-lo…. Em primeiro lugar, urge compreender e aceitar que o facto de ser Yaô não acarreta poder nem supremacia. Acarreta antes sim mais responsabilidade e obrigações, mais humildade e sacrifício. Perante Olorum e os Òrisàs em todos os aspectos, mas também, de forma mais terrena e palpável perante o seu Pai ou Mãe de Santo. Alguém nos merecerá mais respeito do que quem zela por nós? Apenas o Pai ou Mãe de Santo está na posse de todos os dados da equação. Apenas o Pai ou Mãe de Santo conhece cada um dos seus filhos ao pormenor, e sabe, através das intuições divinas que lhe são concedidas, o melhor para cada um deles. Yâo que não aceite esta premissa, não é digno do Urukó que carrega.

Os esforços que os zeladores fazem diariamente, muitas das vezes sem conhecimento dos beneficiários, para o bem estar e crescimento de cada filho terão e deverão ser reconhecidos. Mais, deverão ser revestidos de um manto de gratidão a toda a prova. Gratidão essa que deverá ser demonstrada não em grandes discursos de exibicionismo, mas em acções palpáveis de respeito e seriedade.

De que vale bater a cabeça e dizer obrigado, se por trás se divide e semeia a dúvida e a desconfiança? De que vale ofertar o Pai ou Mãe de Santo com o mais bonito e valioso dos presentes, se depois se desdiz e critica o irmão só porque pensa e é diferente? Não teremos todos direito à nossa individualidade e liberdade, desde que não colida com a do próximo?

Com que moral, alguém que proceda assim, poderá agradecer ao seu Santo e pedir ajuda para as suas coisas? Qual o móbil de alguém que apenas pretende desdizer?

È esta a obrigação do Yaô. Lutar para unir, respeitando todos e cada um. Nunca o contrário. Até porque se assim o fizer, que exemplo dará aos mais novos, que estão na fase das dúvidas pela qual o próprio Yaô já passou?

Para que não restem dúvidas, atacar outro ser humano, qualquer que seja a forma do ataque, é atacar de forma directa Deus, os Orisás e o seu Pai ou Mãe de Santo . Sem excepções. Nem que seja com um simples olhar de desdém, ou com uma palavra de desapreço.

Yaô que assim proceda, dificilmente servirá de recipiente para receber condignamente a energia do seu Òrisà num Siré.

Fazer Santo porque é moda, nunca deu bom resultado. Em vez de progredir, quem o faz regride. Humana e espiritualmente. Antes de se escolher o caminho da iniciação, é necessário ponderar os prós e os contras, aferir dos direitos e dos deveres. Dever-se-à ter consciência que ninguém é perfeito ( porque se o fosse seria Òrisà em vez de humano), mas que é sempre possível melhorar. E que nunca é tarde para o fazer.

Depois, basta ter fé e pedir ajuda. Pedir a Olorum que guie o seu caminho, nas rotas de Ògún e sempre na luz branca de Osálá.

Porque é esse o caminho do Santo. È esse o caminho de Deus e como tal, deveria ser o caminho de cada um.

Candomblé em portugal: Trabalho de Antropologia, sob o tema “A religião Candomblé-Ketu em Portugal e a sua influência na prática de Enfermagem”, realizado por estudantes da Escola Superior de Enfermagem, no Ilé Asè Omin Ògún (5ºPost)

•Abril 11, 2012 • Deixe um Comentário

Continuamos a publicar os documentos desenvolvidos pelo grupo de estudo da Escola Superior de Enfermagem que visitou o Ilé Asè Omin Ògún, com intuito de presenciar “in loco” um Siré de Candomblé – Nação Ketu, de forma a observarem os trabalhos, efectuando assim o seu trabalho para a deisciplina de Antropologia e Sociologia.

Continuaremos a publicar desta vez, o trabalho escrito, mais exactamente, a Observação Etnográfica levada a cabo:

Religião: Candomblé

Morada: Alameda Guerra Junqueiro, 34 – Laranjeiro – Almada.

Loja – Casa de Ògún

Dia: 21 de Janeiro de 2011

Hora da observação: 15h30min – 16h30min

Nome dos estudantes: Inês Melo, Paula Esteves, Tatiana Marques e Teresa Meireles

Reunião com os representantes de Candomblé

Após um prévio contacto via correio electrónico ao qual obtivemos imediatamente resposta, os representantes de Candomblé marcaram uma reunião com o propósito de nos conhecerem e saberem quais as nossas intenções, esta serviu para nos concederem autorização para assistir a uma cerimónia e nos dizerem qual o local de culto para darmos continuação ao nosso trabalho de observação etnográfica, pois esta cerimónia é realizada à porta fechada e só assiste quem é convidado.

Esta reunião ficou agendada para as 15h30min como foi referido. Chegando ao local, meia hora mais cedo, deparamo-nos com o facto de ser uma loja de venda de produtos esotéricos. O nome desta é Casa de Ògún.

À entrada existe um balcão de atendimento do lado esquerdo onde está um senhor que nos confirma a hora da reunião pondo-nos à vontade enquanto esperávamos por esta.

A loja está dividida por dois pisos, no rés-do-chão existem variadíssimos produtos para venda e no piso de cima reparamos em algumas pessoas que por lá andam e trabalham.

No rés-do-chão todas as paredes estão cobertas de máscaras africanas de variadíssimas formas e tamanhos, as paredes que não têm máscaras encontram-se revestidas de prateleiras onde se encontram os mais diversos produtos esotéricos para venda.

À entrada, do lado direito, existem inúmeras peças de bijuterias, desde colares, de missangas de todas as cores e de imensas pedras, peças para colocar na cabeça, com penas, búzios e conchas de perder de vista, anéis e pulseiras de todos estes materiais.

Seguindo pelo lado direito e indo até à parede final encontram-se velas com cores, dimensões e cheiros variados, as quais tinham diversos nomes e funções, ou seja, havia velas para namorados, velas de amarração, velas para a amizade, para o sucesso no trabalho, entre muitas outras. Existiam mesmo velas para todos os Orísás (Santos) com as suas respectivas formas.

Todo o local estava envolvido numa imensidão de cheiros, devido a estas misturas das velas e também de vários incensos que queimavam e outros que estavam para venda, tal como referido para as velas, existiam incensos de camomila, baunilha, alfazema, menta, canela, jasmim entre tantos outros.

Do lado esquerdo da loja, depois do balcão, existem dois modelos, um feminino, vestido com uma saia branca rodada, camisola branca rendada, ambas com um tecido leve e com um pano enrolado à volta da cabeça, também ele branco e volumoso, o modelo masculino está vestido com umas calças largas brancas do mesmo tecido, com uma túnica maioritariamente azul e com outras misturas de cores e com um género de chapéu na cabeça com variadíssimas cores. Ambos os modelos têm ao pescoço inúmeros colares de missangas e outros materiais, alguns parecem madeira, com várias cores.

Por trás destes modelos, existem umas prateleiras com produtos que nos fazem lembrar a natureza parecendo ser raízes de árvores, folhas, cascas de tronco de árvores e pedras.

À hora certa o senhor da entrada mandou-nos subir pois os representantes da religião de Candomblé já nos podiam receber.

Subindo as escadas, existe uma varanda que permite a observação de toda a loja, no centro da varanda existe uma mesa grande na qual trabalham uma senhora e um senhor, parecendo estar a confeccionar roupa, pois toda a mesa estava coberta de tecidos.

Ao pé da mesa, brinca no chão uma menina, que nos recebeu com simpatia.

Do lado esquerdo após subir as escadas, existe uma porta, que dá acesso ao gabinete onde decorreu a reunião. O gabinete, não muito grande, mas muito acolhedor, está repleto de um cheiro que não conseguimos decifrar. No centro do gabinete existe uma secretária com duas cadeiras de um lado e por trás delas uma janela com vista para o exterior, e quatro do outro e do lado direito perto de uma janela, que permita a vista para o interior da loja, existe outra secretária onde está um computador ligado. No chão perto desta secretária existe um pequeno pano preto aveludado com quatro búzios e uma vela que queimava. Por trás das quatro cadeiras, logo do lado direito da porta existe um imponente armário e do lado esquerdo da porta uma pequena mesa redonda, decorada com uma toalha bordada e com pequenas pedras e outros materiais que não identificámos. Existe, tal como no rés-do-chão da loja, algumas máscaras africanas que decoram as paredes, dois certificados emoldurados por trás da porta e também algumas esculturas africanas que decoram alguns cantos do dito gabinete.

Neste gabinete receberam-nos dois senhores, que se encontravam vestidos de calças de ganga e um de camisa de manga comprida branca aos quadrados azuis e o outro de t-shirt preta e de casaco desportivo azul-escuro. Ambos têm colares ao pescoço, do género de colares que existem nos modelos na loja, e têm também uns grandes anéis.

Recebem-nos com grande simpatia e convidam-nos a sentar, apresentam-se e dizem o que são e qual a sua função. Sendo que um se apresenta como Babálórísá Jomar e outro como Babálórísá Paulo, são como que Presidente e vice-Presidente, respectivamente. Após as nossas apresentações eles explicam-nos o porque da reunião e que a religião que representam para eles é algo de muito sagrado e que por isso nem todos podem assistir às cerimónias e que têm de passar por uma espécie de aprovação da parte deles. Depois de tirarem as respectivas opiniões sobre nós concedem-nos a dita autorização e convidam-nos a assistir á cerimónia de dia 28 de Janeiro pelas 18h30min. Após estas formalidades, abrem-se connosco e explicam-nos no que consiste a religião de Candomblé, qual o valor da mesma para eles e referem alguns aspectos sobre a mesma que acham relevantes.

Candomblé em portugal: Trabalho de Antropologia, sob o tema “A religião Candomblé-Ketu em Portugal e a sua influência na prática de Enfermagem”, realizado por estudantes da Escola Superior de Enfermagem, no Ilé Asè Omin Ògún (4ºPost)

•Março 27, 2012 • Deixe um Comentário

Continuamos a publicar os documentos desenvolvidos pelo grupo de estudo da Escola Superior de Enfermagem que visitou o Ilé Asè Omin Ògún, com intuito de presenciar “in loco” um Siré de Candomblé – Nação Ketu, de forma a observarem os trabalhos, efectuando assim o seu trabalho para a deisciplina de Antropologia e Sociologia.

Começaremos a publicar desta vez, o trabalho escrito:

Introdução

 

No contexto da Unidade Curricular de Antropologia e Sociologia I, inserida no primeiro ano do plano curricular do curso de licenciatura em enfermagem, foi proposto a realização de um exercício de observação etnográfica, para o qual nos propomos a explicar a seguinte frase de partida: “ A religião Candomblé-Ketu em Portugal e a sua influência na prática de Enfermagem”.

A elaboração deste trabalho tem como finalidade desenvolver a capacidade de observação e conhecer a realidade social de questões contemporâneas, partindo do tema religião, que no nosso grupo será especificamente a religião de Candomblé-Ketu, aplicando os princípios da observação etnográfica, seleccionou-se, primeiro, a religião, e depois um local de culto religioso, inserido na mesma, como objecto de estudo. Desta forma, o objecto de estudo por nós escolhido é a religião de Candomblé-Ketu. A observação no local foi feita em três dias diferentes do mês de Janeiro, pelo que o grupo se dividiu equitativamente para esse fim e trabalhando com base no texto Os Argonautas do Pacífico Oriental. Introdução: objecto, método e alcance desta investigação de Bronislaw Malinowski (1997).

Este exercício de observação participante, desenvolvido por Malinowski é a maneira mais fidedigna de obter dados relativamente a qualquer estudo que se pretenda realizar. “O estudo da religião faz-se através da observação de práticas e da performance ritual. Essa observação deve ser, de preferência e sempre que possível, participante. É observando e falando com informantes qualificados que se consegue perceber o comportamento religioso das pessoas.” (Luís Batalha, 2005:261).

A elaboração deste trabalho teve os seguintes objectivos adjacentes: reconhecer que a religião de Candomblé-Ketu está intimamente ligada á Natureza, a valores, por eles considerados sagrados e com uma hierarquização bastante rígida, descrever os factos observados no local de culto, interpretar esses factos segundo os componentes da religião de Candomblé-Ketu e reconhecer a importância do conhecimento sobre a religião em causa para a prática de enfermagem.

Desde sempre que a religião é considerada pela maioria das pessoas como sendo um ponto fulcral nas suas vivências, transmitindo-lhes apoio nas alturas que mais necessitam, esperança e determinação para enfrentarem as adversidades, obstáculos com que se deparem e mesmo na vida do dia-a-dia. Existe uma multiplicidade de religiões, todas elas com as suas características individuais e que as tornam únicas, influenciando de várias formas as pessoas que nelas acreditam. Por isso, é necessário que, como futuros enfermeiros estudemos esta variedade de religiões de forma a prestarmos um melhor e mais adequado tratamento de acordo com essa individualidade, respeitando sempre o padrão de vida, crenças e valores de cada um.

  1. Definição de religião

Religião, que vem do latim religare, como Luís Batalha definiu, consiste num conjunto de crenças, cântico, oferendas e nalguns casos até de sacrifícios que poderiam ser humanos.

A religião é “um conjunto de rituais, racionalizados pelo mito, que mobilizam os poderes sobrenaturais com o propósito de promover, ou impedir, que determinados fenómenos que afectam o homem e a natureza aconteçam” (Luís Batalha, 2005:260 citando Anthony Wallace, 1966:107).

(…) A religião é um conjunto de crenças e comportamentos pelos quais as pessoas tentam adquirir controlo sobre o que não é controlável de outra maneira” (Luís Batalha, 2005:260).

  1. Religião de Candomblé-Ketu

O Candomblé é uma religião monoteísta Afro-Brasileira que nasceu da fusão do culto aos Orísás (Santos) praticado em África há mais de cinco mil anos e as formas e fórmulas adoptadas pelos negros escravos que, forçadamente e após a grande travessia do Atlântico, se viram obrigados a as utilizar em terras Brasileiras para, camufladamente, continuarem a venerar os seus “Santos”.

Através dos Orísás (Santos), ministros de Olorún (Deus) e energia em estado puro que rege as forças da natureza, o Babálórísá (Pai-de-Santo) ou Yálórísá (Mãe-de- Santo) prega e ensina aos seus seguidores, sejam eles Yaôs, Abiãns ou simpatizantes, valores sagrados como o respeito, elevação espiritual, compaixão, solidariedade, e perdão.

Alguém ligado ao Candomblé tem por obrigação honrar e ajudar o próximo, sendo que desta forma, está a honrar os Orísás (Santos) e o Olorún (Deus).

Apoiado num sistema hierárquico extremamente rígido, em que só com muito esforço, determinação e fé se consegue ascender, o Candomblé prima por ser uma religião maioritariamente de cariz oral, em que os ensinamentos sagrados se apreendem com o convívio e respeito aos mais velhos, detentores do conhecimento. Aliás, a ancestralidade é ponto fundamental do Candomblé: os nossos ancestrais directos e indirectos são para ser cultuados, venerados e são eles a base de todo o Asé, força vital que nos guia e orienta os nossos actos, sem nunca colocar em causa o dom maior que Olorún (Deus) nos concedeu: o nosso livre arbítrio.

A Natureza e os seus elementos ocupam lugar de natural destaque na nossa religião. Quer pela ligação e regência de cada um dos Orísás (Santos) aos vários aspectos que a constituem, como também devido ao facto de que é da Natureza que se extraem a esmagadora maioria dos componentes sagrados que irão proporcionar o culto e os rituais. Folhas, árvores, água, animais entre outros, são os veículos que possibilitam levar a cabo a propagação do Asé.

Não se pense no entanto que Candomblé é sinónimo de poder; nenhum Pai ou Mãe de Santo, filho ou filha de Santo voa em vassoura como um bruxo ou possui poderes mágicos como Merlin, pelo contrário, estar no Candomblé, para quem o faz correctamente entregando-se de corpo e alma aos Orísás (Santos), acarreta consigo sacrifício, responsabilidade e devoção. No entanto, tem como paga o maior de todos os presentes: o amor de Olorún (Deus), dos Orísás (Santos) e a satisfação de quem faz o bem, ajudando o próximo”. (Documento cedido por Babálórísá Jomar d’Ògún).

  1. Entidades regulamentadoras de actos religiosos Afro-Brasileiros

A ANACAB, Associação Nacional dos Cultos Afro- Brasileiros, enquanto representante legal da FENACAB – Federação dos Cultos Afro-Brasileiros, realiza, regulamenta e parametriza actos religiosos em que o objectivo é a reverência e culto a Olorún (Deus), aos Orísás (Santos) e outras entidades, através da música, reza dança, etc.

  1. Descrição Sumária da prática religiosa e dos actos de culto

De quatro em quatro ou de oito em oito dias, consoante o calendário litúrgico instituído, os fiéis reúnem-se com o propósito de crescer espiritual e humanamente, comemorar a sua fé, aprenderem normas, preceitos e aspectos tanto práticos como teóricos relativos às religiões de cariz Afro-Brasileiro.

Os Orísás (Santos), para além das celebrações periódicas praticadas pelos sacerdotes cujas denominações poderão ser Ministro/Sacerdote/Pai de Santo/Babálórísá, possuem em cada ano, um dia e um mês próprios para serem louvados e reverenciados, dia esse em que se realiza uma festa religiosa especifica para comemorar essa data.

Todos os preceitos, normas, pormenores litúrgicos e religiosos, conforme as regras específicas da religião (Candomblé e restantes cultos Afro), apenas são do conhecimento dos seus iniciados, sendo que, apenas com o passar dos anos e com a natural evolução espiritual que dai advirá, serão esses conhecimentos partilhados pelos Ministros/Sacerdotes/Pai de Santos/Babálórísá aos seus seguidores.

Dentro das religiões Afro-Brasileiras em geral, e no Candomblé em particular, o percurso das etapas de evolução dentro da hierarquia religiosa está pré-estabelecido:

  • A primeira etapa é o Bòrí (baptismo), ministrado pelo Babálórísá/ Yálórísá (Pai ou Mãe de Santo) que não vincula o individuo à casa onde o mesmo é efectuado, mas sim à religião em si;

  • Seguem-se as Obrigações (a primeira que marca a iniciação na religião e as seguintes que funcionam como confirmações sucessivas) que, são efectuadas por norma, uma por ano até ao número de sete, sendo que após atingido este patamar, passam a ser feitas apenas aos catorze e vinte e um anos;

  • Após a sétima obrigação, o individuo passa a usufruir de um posto de maior relevo dentro da comunidade; os postos e cargos são vários e múltiplos (Ex: Ogan – Tocador de atabaque, etc…).

No Candomblé são celebrados casamentos e funerais; ministrado pelo Babálórísá / Yálórísá (Pai ou Mãe de Santo) após o falecimento de um iniciado, é efectuado o denominado Asèsé (cerimonia fúnebre), considerado de importância fulcral dentro dos dogmas religiosos.

A liturgia oral destes trabalhos é efectuada através de Orikís (orações) próprios para cada situação,proferidos pelo Babálórísá / Yálórísá (Pai ou Mãe de Santo) ”. (Documento cedido por Babálórísá Jomar d’Ògún).

Para se ser especialista religioso é preciso passar por determinadas provações e testes até se demonstrar que se tem as necessárias aptidões.” (Luís Batalha, 2005:266).

Os rituais (ou ritos) representam a prática das pessoas em relação ao sobrenatural e ao sagrado. São uma forma de manter a coesão dos grupos sociais em torno de uma determinada cosmologia. Servem também para aliviar a tensão emocional criada por situações de risco como o nascimento, a morte, e o casamento. Uma das funções dos rituais é assegurar que as pessoas atravessam esses momentos com o devido enquadramento ideológico e social.” (Luís Batalha, 2005:270).

  1. Ilé Asè Omin Ògún (Terreiro de Candomblé na Sobreda)

Embora existam outros terreiros de Candomblé em Portugal, este foi o escolhido pelo nosso grupo pois é um dos terreiros considerados de maior importância.

Foi registado na FENACAB – Federação Nacional dos Cultos Afro-Brasileiros com o número 3901.

O Ilé Asé Omin Ògún, terreiro de Candomblé Nação Ketu, está situado ao sul de Portugal, na pequena vila da Sobreda.

Fundado em Abril de 2004, tem desde a sua abertura, como Agábá o Bábàlòrísá Jomar d’Ògún, e como Otún Òrisá o Bábàlòrísá Paulo d’Yemonjá.

Actualmente o terreiro conta com cerca de sessenta Omo Orísá, entre Yaôs, Abians e simpatizantes.

É, á data, um dos mais importantes terreiros de Candomblé Ketu de toda a Europa, sendo reconhecido além-fronteiras pelo trabalho desenvolvido, quer na divulgação da religião que professa, como também pelo respeito dos fundamentos que emprega nos seus ritos e vida quotidiana”. (Documento cedido por Babálórísá Jomar d’Ògún).

  1. CONCLUSÃO

Com o decorrer da elaboração deste trabalho, que teve por base a observação etnográfica, podemos concluir para que a profissão de Enfermagem garanta uma prestação de cuidados individualizada tem que ter em conta os valores e hábitos de cada pessoa.

Como sabemos a crença na religião é uma aliada na recuperação por parte das pessoas que nela acreditam.

É importante o conhecimento das várias religiões existentes para que, no caso de a pessoa precisar, o profissional de enfermagem possa contactar o representante da religião com facilidade, com vista á deslocação do mesmo ao local onde seja necessário.

Com a elaboração deste trabalho, verificamos que a religião de Candomblé-Ketu, está intimamente ligada á Natureza, como verificamos na observação etnográfica, estão sempre presentes elementos representativos da Natureza. É definida por uma hierarquia rígida em que se regem por valores como o respeito pelo mais velho e pelo próximo.

Podemos concluir que são muito organizados, determinados e que defendem e respeitam aquilo em que acreditam.

Em suma, como futuros profissionais de saúde devemos sempre respeitar os valores pessoais e crenças da pessoa assistida mesmo que estes não façam parte do nosso modo de vida e não devemos discutir ou tentar dissuadir a pessoa assistida, pois estas não são as nossas funções. Para que a prestação de cuidados seja o mais individualizada possível é necessário ter sempre por base o respeito pelo padrão de vida de cada um.

Candomblé em Portugal: A FENACAB Portugal junta a sua voz ás manifestações de pesar pela morte da Egbomi Cidália de Iroko

•Março 23, 2012 • Deixe um Comentário

O Candomblé Mundial perdeu uma das suas maiores figuras, na vertente de Lesse Òrísá: Cidália Barbosa Soledade, ou como era conhecida entre o Povo de Santo, Egbomi Cidália de Iroko. Filha do Gantois e a mais antiga filha de Iroko que se tenha conhecimento em todo o Brasil, mulher sábia e serena, de voz cadenciada e dotada de um grande conhecimento do culto, Egbomi Cidália de Iroko,faleceu aos 83 anos de idade.

Egbomi Cidália, nasceu na cidade de Salvador, Bahia, em 19 de fevereiro de 1930. Èra conhecida como a “Enciclopédia” do Candomblé, por possuir um grande repertório de conhecimentos dessa religião afro-brasileira. O nome Ebomi vem em recorrência do seu cargo no Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê – O Terreiro do Gantois, completando em Outubro de 2011, 70 anos de vida religiosa.

Grande parte desse período foi dedicado a manter as tradições culturais e religiosas da nossa matriz africana, através da sua actuação em diversas entidades, como por exemplo o Conselho do Desenvolvimento da Comunidade Negra – CDCN, fazendo palestras, seminários e conferências em espaços académicos com uma linguagem fácil e contagiante, perpetuando as raízes que amava e defendia, com sua vasta e brilhante memória.

A Fenacab – Coordenação Internacional de Portugal, através da sua representante ANACAB – Associação Nacional dos Cultos Afro-Brasileiros, vem-se junta ao luto de todo o Povo de Santo, em honra deste baluarte das Religiões Afro-Brasileiras em geral, e do Candomblé em particular, enviando os sentidos pêsames tanto à sua família de sangue como à sua família de santo.

Que Olorun a tenha no seu regaço.

Fenacab – Coordenação Internacional de Portugal

Anacab – Associação Nacional dos Cultos Afro-Brasileiros

Candomblé em portugal: Trabalho de Antropologia, sob o tema “A religião Candomblé-Ketu em Portugal e a sua influência na prática de Enfermagem”, realizado por estudantes da Escola Superior de Enfermagem, no Ilé Asè Omin Ògún (3ºPost)

•Março 20, 2012 • Deixe um Comentário

Continuamos a publicar os documentos desenvolvidos pelo grupo de estudo da Escola Superior de Enfermagem que visitou o Ilé Asè Omin Ògún, com intuito de presenciar “in loco” um Siré de Candomblé – Nação Ketu, de forma a observarem os trabalhos, efectuando assim o seu trabalho para a deisciplina de Antropologia e Sociologia.

3º Post (Clique na imagem para aumentar

 

 
Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.